História – parte 1

Shibari: sentimentos e impressões – parte 1

Introdução

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A escravidão com cordas, também conhecida como Bondage, Shibari ou Kinbaku desperta em muitos uma aura de mistérios e fascinação, e não é para menos. Dominar e ser dominado tendo as cordas como instrumento requer dos envolvidos muito conhecimento, respeito e confiança. Essa fascinação se dá pela sua beleza e sensualidade, além de tudo aquilo que ela proporciona, porém é uma das práticas mais perigosas do BDSM. Hebari, um shibarista australiano, declara em http://naturallytwisted.co/reposted-articles-2/rope-bondage-for-dms/. “O Bondage é uma atividade perigosa. É uma das poucas atividades dentro do BDSM que realmente podem machucar, ou até matar. Nos últimos anos temos visto um expressivo aumento desta prática, tanto nos estilos japonês como Ocidental”. Muitas práticas dentro do BDSM são perigosas; envolvem riscos. A mídia já divulgou mortes e acidentes graves dentro do sadomasoquismo. Em 2010 um aposentado alemão de 72 anos, Konrad Mueller, foi encontrado morto dentro de um quarto de bordel legalizado na cidade de Leipzig, na Alemanha, amarrado, amordaçado e ajoelhado. Ele morreu durante uma sessão com sua prostituta predileta, de 22 anos. A causa apontada pelo médico legista foi uma combinação de forte de calor naquele dia e das emoções vividas pelo idoso. Outro caso divulgado – esse mais conhecido – foi o do inglês Robin Mortimer, de 58 anos, chefão de uma equipe automobilística inglesa, que foi encontrado morto em uma cabine, amarrado e usando uma máscara de couro com uma bola – gag – e uma corrente ao redor do pescoço. Segundo os investigadores a causa da morte pode ter sido ele se engasgar com a gag depois de tomar anestésico em excesso para prolongar a sessão sádica. Estes casos citados, e tantos outros, são de riscos que não foram minimizados, ou previstos. E nas duas situações, ambos estavam amarrados. Por todas estas razões – principalmente a dos riscos – este blog irá trazer impressões, dados, informações e depoimentos sobre a arte das cordas, colocando alguns pingos nos i´s em determinados termos, bem como desmistificando outros. Assuntos como: história, segurança, cordas, técnicas, relações com outros temas dentro e fora do BDSM, livros, Mestres, shibaristas, termos, etc., serão apresentados e discutidos. O tema é amplo, prazeroso e muito interessante. Sintam-se, a partir de agora, literalmente amarrados!

tumblr_lydsz9p9MS1qakya1o1_1280Além do fetiche

As práticas de escravidão com cordas apareceram antes do advento oficial do BDSM e a ele foram incorporadas. Importante esclarecer que, mesmo que não existisse o BDSM no seu atual formato, ora como um órgão tácito, ora organizado e institucionalizado, agrupando pessoas afins, a escravidão com cordas teria toda a fundamentação, princípios e técnicas para sozinha se sustentar, e ser, por si só, uma instituição independente. Óbvio que não temos como saber se está prática estaria com toda a magnitude atual, haja vista que grande parte da sua expansão se deu pelo crescimento do próprio BDSM. Diz-se aqui não saber de forma quantitativa, por não ter uma pesquisa que demonstre isso, mas as vistas grossas percebe-se que é largamente realizada e apreciada.

Além de todo o sustentáculo teórico e técnico, a escravidão com cordas ainda proporciona aos seus envolvidos experiências que por vezes são imensuráveis, precedendo um estado nirvânico de puro êxtase, aflorando sentimentos do corpo e da alma pela arte e sensualidade que lhe são próprias: poder, entrega, submissão, beleza, dominação,.. sentimentos. Aqui está o primeiro pilar de sua essência: a capacidade e o estado de fazer os envolvidos sentirem algo que extrapola o conceito de fetiche.

Mas a escravidão com cordas – Shibari/Kinbaku – não é um fetiche? É muito mais que isso, é uma instituição, que até pode contemplar alguns fetiches, mas que está muito além do desejo de apenas ser imobilizado/amarrado, parcial ou totalmente.

Calcanhar de Aquiles

Definir os conceitos de Shibari e Kinbaku talvez tenha sido uma das questões mais complicadas nos últimos anos dentro da escravidão com cordas para os Ocidentais. Muita confusão foi feita por pura falta de informação. De uns tempos para cá temos tido acessos através de entrevistas, livros e depoimentos de grandes Mestres Orientais da verdadeira essência de cada um destes termos, e são estas informações que nos proporcionam hoje a tentativa de termos um superficial entendimento que nos forneça condições de iniciarmos uma definição, que está muito além da simples tradução “wikipediana”.

As formas de ver, sentir, perceber e valorar aspectos culturais, artísticos, fetichistas, sexuais, etc., é muito diferente entre os Ocidentais e Orientais. Norman Doidge, psiquiatra, psicanalista e pesquisador do Columbia University Center for Psychoanalytic Training and Research em Nova York, e do departamento de psiquiatria da University of Toronto, em seu livro “O cérebro que se transforma: como a neurociência pode curar as pessoas”, apresenta alguns experimentos sobre a percepção que revelam que os Orientais percebem de forma holística, enquanto que os Ocidentais de forma isolada, e conclui: “Estes aspectos da percepção não estão sob nosso controle consciente e são dependentes de circuitos neuronais treinados e mapas cerebrais”.

Mas precisamos disso para definir esses termos? Sim, já que a estética japonesa para escravidão com cordas só pode ser interpretada/percebida por um japonês, pois ela carrega além do aspecto visual, todo um contexto histórico e cultural. O quê uma boa parte dos Ocidentais olham? O nó, a amarração, a modelo, no máximo a composição fotográfica. O quê os Orientais olham, ou melhor, percebem? O todo! E nesse todo, história e cultura estão contempladas.tumblr_mjg1tzvG1o1rr9uvzo1_1280

Em junho de 2010 foi lançado o filme “Kinbaku – the art of Bondage”, uma curta metragem finlandesa, verdadeira obra prima em termos de imagens, trilha sonora e depoimentos, disponível em http://vimeo.com/42430658, e nele existe uma entrevista com o Mestre Haruki Yukimura, um dos melhores e mais reconhecidos nomes como especialista de cordas no Japão, com mais de 2,500 vídeos de Bondage produzidos. Nesta entrevista, declara o Mestre Yukimura: “Existe uma cultura milenar de corda no Japão: quimonos, plantes e presentes são amarrados”. (…) “Até na bainha das espadas existiam cordas”. (…) “No Ocidente, a princesa que vai ser salva é colocada numa prisão, no alto de uma torre; enquanto que no Japão, ela está amarrada”. (…) “Existe uma grande quantidade de histórias japonesas que contemplam amarrar as pessoas: e existem muitas mulheres querendo ser amarradas”. (…) “A relação do japonês em suportar sofrimento é algo bom, é algo belo: é uma característica nacional encarada com orgulho”.

Percebe-se nas palavras do Mestre Yukimura a importância dada pelos japoneses em todo o contexto histórico que envolve a escravidão com cordas. Estes mestres são denominados pelos Orientais de Nawashi ou Bakushi. O termo Nawa significa corda, e Shi seria uma espécia de apêndice para indicar um ofício, como “proficiência em”. Da mesma forma, Baku significa restrição. Concluindo o entendimento da importância histórica pelos japoneses na percepção holística para a realização de seus atos – imprescindível para a definições de Shibari e Kinbaku o o mesmo mestre acima citado em entrevista dada ao Mestre Osada Steve em dezembro de 2007, sobre a utilização destes termos – disponível em http://tokyobound.com/blog/?p=132 – quando questionado o que achava de alguns Ocidentais usarem o termo Nawashi para designar qualquer um que realiza a escravidão com cordas, independente de ser bom ou não, mesmo que possua algum treinamento formal em Shibari, respondeu: “Porque utilizar um termo japonês se aquele não é um estilo de Bondage japonês? E não, eu nunca usaria o termo Nawashi para um amador, e certamente não para alguém que não estudou a arte por anos no Japão”.

Quanto carrega de cultura as palavras “estilo de Bondage japonês”? Talvez a declaração a seguir do mesmo Mestre Yukimura, nesta mesma entrevista, comece a responder nossas dúvidas.

“Shibari para mim é uma troca emocional entre um homem e uma mulher. Isso é algo único no Japão – de expressar amor e emoção através das cordas. Então Shibari, não é como você faz esta ou aquela amarração, é como você usa a corda para trocar emoções com uma mulher”.

Finaliza-se a primeira parte deste trabalho deixando aos amigos leitores a conclusão de que a cultura de uso nas cordas no Japão nos permitirá perceber e/ou sentir que Shibari e Kinbaku são termos muito maiores do que simplesmente amarrar. Na próxima parte vamos começar a retirar a flecha deste calcanhar.

 

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