História – parte 3

Shibari: sentimentos e impressões – parte 3

Nobuyoshi-Arak-12Os artigos anteriores apresentaram algumas conexões oriundas de aspectos sociais e religiosos da história japonesa que começam a montar o grande quebra-cabeça para entendimento das origens do shibari/kinbaku – o simbolismo que o uso da corda tem para os japoneses. Não existe a mínima pretensão de construir um estudo sociológico ou antropológico desta, mas tão somente demonstrar quais foram os principais pontos que criaram as condições favoráveis para seu surgimento. O início da história do Japão, como o de muitos outros grandes países, é uma história de guerras violentas, e agora é o momento de explorar como esse passado feudal, de muitos anos de isolamento, criou duas variáveis fundamentais e precursoras do moderno shibari/kinbaku: a arte marcial “Hojojutsu” e as “Punições Oficiais”.

Cordas e Artes Marciais.

Após anos de luta intermitente entre famílias poderosas (clãs que compunham a estrutura japonesa), irrompeu uma guerra civil. Estes cem anos de conflito, abrangendo a guerra Onin (1467-1477) e o Sengoku Jidai ou “Período de Estados em Guerra” (1492-1560), ficaram conhecidos por sua brutalidade entre as várias facções que disputavam entre si o controle do Japão. Nesse momento muitas artes marciais floresceram e é aqui que aparecem modelos distintivos de captura e contenção de prisioneiros, sendo esse período considerado o nascimento do Hojojutsu.

Hojojutsu (também conhecido como Nawajutsu) é a arte marcial japonesa tradicional de restringir um oponente usando cabos ou cordas. Pensa-se que o Hojojutsu já foi uma das 18 habilidades de luta vitais ensinadas aos guerreiros japoneses. Em combate, não era incomum para um samurai levar uma corda para ataque ou defesa, ou ainda como ferramenta para restrição aos prisioneiros de guerra. Originalmente englobando diversos materiais, técnicas e métodos da escola de artes marciais, o Hojojutsu é uma arte de combate essencialmente japonesa, produto único desta rica cultura.Nobuyoshi-Araki-02

Suas origens exatas como técnica de luta permanecem um tanto obscuras. O Dr. Itatsu Yasuhiko em seu livro Yoryoku/Doshin Jutte Hojo (“Artes da Polícia” 1992), sugere que o Hojojutsu poderia ter sido incluído nas técnicas do Takenouchi-ryu de artes marciais, fundada em 1532. Esta escola é uma das mais antigas no Japão e ainda continua em funcionamento, já tendo ensinado mais de 630 técnicas de luta diferentes, e destas, cerca de 150 ainda são praticadas hoje. Independentemente de suas origens exatas, o que está claro é que o Hojojutsu foi e é um meio muito eficaz de captura, e entender suas técnicas básicas é fundamental para a compreensão da evolução do moderno shibari/kinbaku.

Todos os laços, nós e amarrações que o Hojojutsu produziu até hoje (e são conhecidos) apresentam um entendimento perspicaz da anatomia humana, promovendo seu sucesso nos processos recorrentes da restrição. Estes incluem: a amarração de membros em várias posições que diminuem o poder do oponente; a colocação de cordas em torno do pescoço, desencorajando e dominando totalmente o oponente; e a criação de constrição em torno de pontos sensíveis na parte superior dos braços, pulsos ou outras áreas (onde se exerce pressão sobre os vasos sanguíneos e nervos).

Nobuyoshi-Araki-13Em 1603 o Japão finalmente foi unificado e até 1868 pertenceu ao xogunato Tokugawa, conhecido como período Edo. No início desse período criou-se uma estrutura social rígida, com os samurais na classe superior e uma estrutura burocrática/administrativa eficaz, sendo um dos objetivos desse sistema reduzir/eliminar os conflitos internos – as guerras civis entre clãs. Edo hoje é a capital Tóquio, foi a capital do Shogun e por isso tornou-se o maior centro cultural, governamental e econômico do Japão. Para maiores detalhes sobre o desenvolvimento histórico, cultural e jurídico do Japão, recomendam-se: artigo “Os Direitos Humanos no Japão”, 1994, de Tonia Yuka Koroku, Juíza e Doutora em Direito, Pesquisadora na Universidade de Keio, e o livro “O Crisântemo e a Espada: padrões da cultura japonesa”, 1972, de Ruth Benedict, editora Perspectiva, São Paulo.

Durante os quase 250 anos de domínio do shogunato Tokugawa o Japão permaneceu quase que isolado do Ocidente. Somente em 1854 seu comércio internacional foi aberto, primeiro junto aos EUA. Este grande período de isolamento é fundamental para a compreensão das origens do moderno shibari/kinbaku. Longe das influências de outras culturas – inclusive dos avanços da tecnologia no metal, ferro e aço, o Hojujutsu tornou-se uma técnica de aplicação de lei proeminente, e se desenvolveu rapidamente, com sofisticação e com todo o simbolismo que as cordas representam para a cultura japonesa.

Com o passar do tempo, a posição – classe/função social – do samurai foi diminuída, e não sendo mais necessário para a guerra, assumiu um posto administrativo/executivo de polícia com responsabilidades para tratar de problemas de combate ao crime no dia-a-dia das grandes cidades e províncias periféricas; crimes tão diversos como brigas, incêndios, traição e assassinatos. Estes deveres frequentemente envolviam a prisão de criminosos com as técnicas de combate de guerra, e foram vitais para os tempos de paz.

De um modo geral, o Hojojutsu no período Edo pode ser dividido em duas grandes categorias: Hayanawa e Honnawa.

A primeira, Hayanawa, é a captura de prisioneiros feitos com uma corda forte e fina (de 3 a 4 milímetros de largura) chamada de “fast rope” (corda rápida). Esta corda era levada pelos policiais como um pequeno pacote (em seus pulsos, cintos ou em suas mangas), e era enrolada de modo que se soltaria sem problemas, sendo passada em torno do corpo, pescoço e braços do futuro prisioneiro. Isto era realizado geralmente por um policial no curso de execução de uma prisão e enquanto o prisioneiro estava resistindo ativamente, por isso tinha que ser feito rapidamente.Nobuyoshi Araki - 11

A segunda categoria, Honnawa (que significa “principal” ou corda “oficial”), eram realizadas ligações com uma ou mais cordas, e como a Hayanawa, poderiam ser de vários comprimentos diferentes. Eram cordas de cânhamo/juta, possivelmente com uns seis ou mais milímetros de diâmetro e utilizadas para proporcionar ligações de vários membros do corpo. Este método de apreensão era utilizado para o transporte de prisioneiros para os locais de encarceramento e exame e, no caso de crimes particularmente graves, para a exposição pública do preso antes da execução.

A categoria Honnawa era normalmente aplicada por um grupo de policiais, em quantidade de 2 a 4, cujo compartilhamento dos conhecimentos da amarração permitiu a criação de padrões mais complicados, demorados e ornamentais que a Hayanawa. Este também foi o método utilizado para amarrar os presos que tinham que ser transportados através de fronteiras provinciais ou para territórios distantes, e aqui existe uma curiosidade: cada jurisdição, com seu conjunto de policiais, tinham seus próprios métodos de amarrar/imobilizar os prisioneiros, e buscavam guardar absoluto sigilo sobre suas técnicas – apesar de serem bem parecidas. Chegavam a ponto de, quando um prisioneiro estava próximo de determinada província, desamarrá-lo e amarrá-lo de qualquer jeito, apenas para que os policiais desta não conhecessem suas amarrações. Mais uma vez, de acordo com Dr. Itatsu em seu livro, “Yoryoku/Doshin Jutte Hojo“, as regras aceitas para este tipo de imobilização eram:

  1. Deve ser impossível escapar, mesmo que o prisioneiro desloque suas articulações;
  2. O preso não deve ser capaz de entender o processo do laço;
  3. A amarração não deve deliberadamente cortar a circulação de qualquer parte do corpo ou causar danos nos nervos;
  4. Deve ser bonita.

Nobuyoshi-Araki-09É notável a capacidade dos japoneses para ritualizar belos objetos do cotidiano e algumas de suas atividades como, a cerimônia do chá, os arranjos florais (ikebana), o sublime, pequeno e forte bonsai, apenas para citar alguns exemplos. O mesmo aconteceu com o Hojojutsu, onde laços diferentes foram utilizados para as diferentes classes da sociedade, com padrões distintos e belos, mostrados claramente nas costas do detido. Este aspecto estético para os padrões de subordinação é, após a construção da amarração, a segunda mais importante herança que o Hojojutsu legou ao moderno shibari/kinbaku, inclusive nos nomes, haja vista que alguns foram transferidos, no todo ou em parte, ao longo dos séculos.

Todas as fotos deste artigo foram retiradas da internet e de autoria de Nobuyoshi Araki, um fotógrafo japonês nascido em 1940 que muito contribuiu para a divulgação do Shibari/Kinbaku como arte. Sua obra hoje totaliza mais de 350 livros publicados, sendo alguns classificados como eróticos e ou pornográficos. Veja aqui um vídeo sobre o Kinbaku e Nobuyushi Araki.

Encerra-se este artigo com mais um vídeo, agora sobre o Hojojutsu, “Impresión Hojojutsu”. Aqui poderão ver mais claramente esta arte marcial, sua história e as semelhanças com o atual shibari/kinbaku.

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