História – parte 2

Shibari: sentimentos e impressões – parte 2

Retirando o Véu de Ísis das cordas

Itoh Seiu - Sketches - Publisher: Shinchosha, 1997

Itoh Seiu – Sketches – Publisher: Shinchosha, 1997

Encerramos a primeira matéria concluindo que a cultura milenar japonesa tem grande importância no processo de definição dos termos Shibari e Kinbaku. Muitas tentativas de defini-los foram realizadas, porém, por vezes de maneira muito simplista. A palavra “Shibari”, que é proveniente da tradução do verbo “amarrar” em japonês, nada tem a ver com questões SM ou eróticas, sendo empregada em aspectos do dia-a-dia da vida dos japoneses. Tudo o que tenha a ver com cordas (nawa) e as amarrações tem uma forte implicação dentro da cultura japonesa, envolvendo sua história, religião, teatro tradicional, artes marciais e até mesmo seu particular e profundo senso de honra e do sagrado. Quando esta palavra é utilizada dentro de um contexto SM, toma outro sentido, aproximando-se da palavra “Kinbaku”.

Osada Steve, em 2012, o único Nawashi ocidental reconhecido como Sensei pelos próprios japoneses, assim expressou as diferenças entre Shibari e Kinbaku: “…Em minha linha de trabalho procuro realizar uma clara distinção entre Shibari e Kinbaku. Posso dizer que levei muitos anos para poder ter um entendimento sobre Shibari, e vou ao meu terceiro ano para tentar decifrar os mistérios do Kinbaku. Shibari para mim é simplesmente amarrar em um estilo japonês e com uma estética japonesa, envolvendo ai todas as atividades como os shows ao vivo e quase todo o trabalho com vídeos. Para que uma sessão de cordas possa qualificar-se como Kinbaku, é necessária uma simbiose com a mulher, desenvolvendo uma conexão a fim de conseguir uma troca emocional que transcenda os meros aspectos técnicos das amarrações; é necessário tocar sua alma. E para evitar mal entendidos, não estou me referindo aos efeitos óbvios que as cordas podem provocar em uma pessoa que está sendo amarrada, o sub space das cordas”.

Japan studio tokyo rope - Osada Steve

Japan studio tokyo rope – Osada Steve

Todos os grandes Mestres de Cordas Japoneses usam a mesma linguagem nas suas definições de Kinbaku. Akeshi Denki, falecido em 2005, um dos maiores Mestres de Cordas do Japão que muito contribuiu para difundir o Shibari/Kinbaku na Europa e um dos primeiros a produzir um DVD explicativo sobre o assunto, disse numa entrevista: “…É a comunicação entre duas pessoas utilizando as cordas como um meio. É uma conexão estabelecida com uma corda entre os corações de duas pessoas. A corda deve abraçar com amor, como os braços de uma mãe abraçando seu filho”.

Cordas para os Orientais – especificamente os japoneses – carregam emoções, sentimentos, atitudes, história, religiosidade, guerras, dores, honra, vergonha, sexo, enfim, um contexto cultural milenar riquíssimo que, apenas conhecendo-o permite aos Ocidentais entendê-los. Sentir? Resposta não conhecida!

Confiabilidade das informações

Identificar e trabalhar com fontes bibliográficas acessíveis e confiáveis que apresentem dados históricos sobre as origens do Shibari/Kinbaku não é uma tarefa fácil. Poucas são as obras produzidas dentro de um contexto de pesquisa científica sério. A internet está recheada de informações sobre o assunto. Após digitar a palavra Shibari no Google, em 0,23 segundos mais de 1.180.000 resultados aparecem. Com o termo Kinbaku, esse número cai para 713.000. O grande problema é que muitas destas informações são discordantes, contraditórias. Quais estão corretas no que diz respeito à parte histórica? Uma parte desse dilema foi solucionada quando Master “K”, educador e pesquisador norte-americano publicou em 2008 o livro The Beauty of Kinbaku – Or everything you ever wanted to know about Japanese erotic bondage when you suddenly realized you didn´t speak Japanese – (A Beleza do Kinbaku – Ou tudo o que você sempre quis saber sobre a escravidão erótica japonesa quando de repente percebeu que você não fala japonês), após iniciar sua pesquisa no Japão no início de 1970. Em outubro de 2013, “The Beauty of Kinbaku” foi traduzido para o japonês e publicado pela editora acadêmica Suriensha em Tóquio, no Japão. Esta obra é um divisor de águas dentro do contexto histórico do Shibari/Kinbaku e do próprio SM, pois a partir dela muito joio do trigo pôde ser separado. É esta obra que irá referenciar uma boa parte deste trabalho a partir de agora.

O Japão espiritual, cordas e o homem sem pecados

'Kinbaku, 1980-2000' Nobuyoshi Araki

‘Kinbaku, 1980-2000’ Nobuyoshi Araki

Duas são as religiões predominantes no Japão: o Xintoísmo e o Budismo. A religião xintoísta, considerada originalmente japonesa, atualmente é praticada por cerca de 119 milhões de japoneses. É uma religião onde o culto às Divindades Naturais é muito presente. Shinto, literalmente significa “O Caminho dos Deuses”. O segundo personagem “To”, significa estrada. É constituída por um sistema panteísta ancestral, adorador de um sistema de crenças. “Shin” (também conhecido como Kami) é o termo genérico para os deuses, deusas, espíritos divinos e vários espíritos da natureza. As moradas de Kami são as águas, rochas, árvores, montanhas, e vários outros lugares ou objetos naturais, e são considerados sagrados pelos seus praticantes. Estes locais são normalmente protegidos por uma shimenawa (uma corda de palha, arroz, algodão ou cânhamo enfeitada com papéis brancos sagrados). Nesta religião as cordas e as amarrações representam um símbolo muito forte em várias outras atividades. A chinowa, um grande círculo feito de junco ou cordas usado para purificação; o kadomatsu, formado a partir de 3 grandes rebentos de bambú e corretamente amarrados para receber o Ano Novo; a hinawa, um cabo fino iluminado em um santuário e depois trazido de volta para a casa para que todos os que lá vivem possam desfrutar de uma boa colheita e prosperidade durante todo o ano. Até o Sumô, tradicional luta japonesa teve origem no Xintoísmo como ritual para uma boa colheita, e as amarrações da tanga ou cinto (mawashi), feitas com cordas, tem olhar idêntico ao shimenawa, criando os espaços sagrados do xintoísmo. Vestindo este cinto o lutador de sumô realiza o Shiko (pisando no chão do espaço de luta livre primeiro com a perna direita e depois com a esquerda) para eliminar quaisquer maus espíritos escondidos no subsolo e para incentivar o Kami positivo a aparecer.

O budismo chegou ao Japão no ano de 539 da Coréia e hoje é praticado por mais de 100 milhões de pessoas. Chamado Bukkyo em japonês, o budismo é um sistema filosófico de prática mental e física rigorosa, que tenta acabar com todo o sofrimento por adesão às diretrizes éticas e espirituais estritas. Se oferece um código moral baseado na compaixão e não-violência e, através da meditação, uma forma de alcançar o discernimento espiritual. Foi fundada no nordeste da Índia há 2.500 anos e baseia-se nos ensinamentos de Siddhartha Gautama, que é conhecido como o Buda. Muitos japoneses praticam o xintoísmo e o budismo simultaneamente. Esta dualidade é característica das atitudes tolerantes do povo japonês em relação à religião, onde ter uma mistura de várias religiões na vida diária é comum. Consequentemente, o xintoísmo e o budismo floresceram juntos (divindades compartilhando as mesmas terras sagradas) na maior parte da história registrada do Japão. Junto com a transmissão do budismo, o famoso texto sânscrito sexual do Kama Sutra também foi introduzido da Índia para o Japão no século VI d.C.

Nihon Kinbaku Shashinshi, japanese bondage photography.

Nihon Kinbaku Shashinshi, japanese bondage photography.

E se o leitor ocidental é surpreendido pela forma como a subordinação sexual, a espiritualidade e a religião foram perfeitamente combinadas e acomodadas pelos japoneses, deve ser lembrado que a cultura japonesa é muito diferente na orientação sexual de qualquer sociedade ocidental baseada em crenças judaíco-cristãs. Vale citar a “Enciclopédia Internacional da Sexualidade – 2004” do Instituto Kinsey, por Robert Francoeur Ph.D. e Raymond J. Noonan Ph.D., editores gerais: “A religião xintoísta reconhece ‘nem o bom, nem o mal’, de modo que o conceito de pecado e culpa pessoal tão comumente associada ao sexo nas culturas ocidentais não existe na tradição japonesa… Nem o Xintoísmo ou as muitas formas de budismo do Japão têm a noção do pecado original, e nem a religião tem uma única divindade que atua como Legislador e Juiz Eterno do delito humano… O Japão é o único grande país industrializado que não demonizou a sexualidade sob as rubricas do pecado, perigo.”

Algumas conexões começam a fazer sentido na formação da cultura japonesa. Na próxima matéria vamos apresentar outros aspectos dessa comunhão sem pecados, além de introduzir as influências do hojojutsu e de um passado feudal brutal, através das “punições oficiais”, como precursores do shibari/kinbaku modernos.

 

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3 Commentsto História – parte 2

  1. Boa noite,

    Estava pesquisando na internet a respeito do assunto e encontrei este artigo. Me ajudou bastante. Obrigado.

  2. Ter Amor disse:

    Um amigo havia me indicado e gostei.

  3. Roberto disse:

    Não resta a menor dúvida. Obrigado pelo esclarecimento. Grato.

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