março, 2015

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Reformulando conceitos

???????????????????????????????Minha jornada através das cordas já tem uns bons anos. Minha primeira corda (enquanto escrevia esse post, fiz as contas, e nossa… passaram-se mais de 14 anos), foi adquirida numa casa de material para construção, era de polipropileno, grossa e grande demais (risos), mas eu me divertia. Fazia uns nós que nem eu entendia, virava literalmente um balaio de gato.

Com o passar dos anos fui praticando, pesquisando e estudando cada vez mais, até começar a entender a essência do Shibari/Kinbaku. Minha primeira providência foi adquirir as cordas Asanawa. O tradicional Shibari oriental utiliza cordas, na sua grande maioria, de juta. Alguns mestres também fazem uso de cordas de cânhamo, e há até mestres que só utilizavam cordas de algodão. Asanawa não é o nome dado especificamente para corda de cânhamo – como muito se lê por ai, mas sim à corda utilizada na prática do Shibari.

Foi um grande sufoco adquiri-las – na época a oferta era muito pequena e o preço alto demais, tanto que não consegui um set confortável de cordas (comprei apenas três). Alguns anos depois comecei a pesquisar sobre as fibras naturais e a produção de cordas. Quando consegui fazer minha primeira corda de juta, ria sozinho de felicidade. Hoje até para a Europa já vendi as Asanawa que produzo, e com elogios.

Entender o significado de Shibari não foi nada fácil, pois minha visão era totalmente ocidental. E aqui vai uma reformulação de meus conceitos. Há quase três anos atrás publiquei no FetLife o texto Simplesmente Shibari – que republiquei recentemente aqui neste site. Hoje, a minha visão de Shibari, acredito estar mais “orientalizada”.

Assim como nós ocidentais, os japoneses também têm diversas opiniões sobre o que é e o que não é Shibari/Kinbaku. Osada Steve e Hajime Kiniko, por exemplo, usam o termo Shibari para escravidão com subordinação, e Kinbaku para o Shibari com uma conexão emocional/sentimental. Akechi Denki, Arisue Go e Yukimura Haruki já fazem uso destes termos como sinônimos. Outros Mestres japoneses vão preferir uma ou outra definição, não invalidando nenhuma delas. São apenas preferências de expressão.

Independente do termo utilizado e da sua definição, algumas características são comuns, e é isso que irá classificar uma escravidão com cordas como Shibari/Kinbaku, e vale lembrar que Shibari/Kinbaku é uma expressão japonesa!

Estas características, sob meu entendimento são:

1 – Deve ser belo: Beleza é algo singular, particular e muito sujeito a críticas, onde alguns a encontram em lugares/momentos onde outros nada veem.

2 – Deve existir a troca de sentimentos e emoções através da força da Dominação: O termo força aqui não é físico, mas sim emocional, que tem como resultado a entrega da parceira numa escala evolutiva, sendo estas trocas de sentimentos momentos singulares para enxergar o belo.

3 – Deve ser eficaz: A amarração, utilizando as técnicas corretas – nós e laços – deve restringir e conter a parceira, imobilizando-a naquilo que se propõe, e não como um mero objeto de decoração.

4 – Deve ser seguro: Jamais colocar em risco a saúde física e emocional da parceira. Atenção constante aos membros do corpo sob a pressão das cordas, bem como aos sinais faciais e corporais não amarrados da parceira; verificação das cordas antes do uso; equipamentos de segurança; local; etc.

5 – Deve conter uma estética japonesa: Eis aqui talvez o aspecto mais sutil – e por isso muitas vezes difícil de ser visto – mas que deve sempre ser valorizado e cultivado. A estética japonesa do Shibari/Kinbaku, além de toda a história que o fundamenta, também contempla outras artes, comportamentos e filosofias, como: o Wabi-Sabi, (um sentimento; uma ideia que não se pode alcançar com palavras; uma visão japonesa sobre a beleza existe no despojamento e na imperfeição); a filosofia dentro da técnica do Shodo (o caminho da escritura japonesa); sua cultura para enxergar o belo, que acontece no todo e não em partes; o respeito pela honra; a solidariedade e compreensão para com seu próximo, etc. (Sobre estas questões, escreverei um post exclusivo.).

IMG_8278Estas características, em conjunto, fazem acontecer o verdadeiro Shibari/Kinbaku. Hoje, relembrando muitas amarrações que já fiz, vejo claramente que muitas delas nem chegavam perto de serem vistas como integrantes dessa arte.

Então se alguém amarrar uma pessoa, usando apenas as técnicas adequadas, (nós e laços trazidos e adaptados do Hojojutsu), e com toda a segurança necessária, para uma visão puramente ocidental de estética, não está fazendo Shibari? A resposta é não! Porém, por favor, isto não significa que esta pessoa não seja boa em imobilização com as cordas, e nem que não está havendo prazer mútuo nisso. Significa apenas que isso não é Shibari/Kinbaku!

Shibari/Kinbaku é emoção, sentimentos, respeito, humildade, segurança, beleza. São seres humanos vivenciando prazeres únicos, mesmo que por um breve momento.

É assim que sinto o Shibari!